
A conquista foi alcançada no mestrado profissional em Educação, oferecido pela Faculdade de Educação da UnB. Durante a formação, o pesquisador recebeu uma bolsa da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), por meio do Programa Permanente de Desenvolvimento da Pós-Graduação (PDPG), que incentiva a formação de profissionais e pesquisadores em cursos de mestrado e doutorado.
Com o trabalho desenvolvido na universidade, Iury utilizou sua própria história para abordar questões relacionadas à educação, acessibilidade, formação de professores e participação social de pessoas surdocegas.
“Significa ser aceito, ser acolhido pela comunidade surdocega e pela família, me tornar um profissional capacitado e ter disposição para lutar”, destacou o pesquisador ao falar sobre a conquista.
Vivências pessoais se transformaram em pesquisa
Com o título O saber na experiência do trabalho com pessoa surdocega: uma escrita autobiográfica, a dissertação foi orientada pela professora Liège Kuchenbecker.
O estudo utiliza a autobiografia como ferramenta de investigação. A partir de lembranças e experiências vividas na educação básica, na universidade e no ambiente profissional, Iury analisa os obstáculos enfrentados por pessoas surdocegas, além das estratégias que podem favorecer o aprendizado e a inclusão.
O trabalho também aborda temas como tecnologias assistivas, diferentes formas de comunicação, acessibilidade e atuação de guias-intérpretes.
Um aspecto importante da pesquisa foi o processo de elaboração do conteúdo. Inicialmente, a dissertação foi produzida em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e, posteriormente, traduzida para o português escrito, considerado sua segunda língua.
O pesquisador também pretende contribuir diretamente para a preparação de educadores que trabalham com estudantes surdocegos.
“Gostaria que os professores entendessem que as pessoas surdocegas têm condições de aprender e se desenvolver. Quero trabalhar na formação desses profissionais, com cursos e estratégias que ajudem a pensar na pessoa, e não apenas no diagnóstico”, afirmou.
Acessibilidade e desafios durante o mestrado
A conclusão da pesquisa exigiu adaptações e organização de diferentes recursos para garantir a participação de Iury nas atividades acadêmicas.
Entre os desafios estavam a necessidade de conciliar horários para utilizar o laboratório de Libras, contar com o acompanhamento de guias-intérpretes e dedicar mais tempo à leitura e à compreensão de textos extensos e com termos complexos.
Em determinadas etapas, o pesquisador também precisou produzir vídeos com o auxílio de uma monitora e da orientadora. Posteriormente, o material era organizado e transformado em conteúdo escrito para compor a dissertação.
A rotina nem sempre podia ser concluída dentro da universidade. Em alguns momentos, Iury dava continuidade às atividades em casa, com a ajuda da mãe, já que o tempo disponível no ambiente acadêmico não era suficiente para finalizar todas as tarefas.
As experiências relatadas reforçam a importância de oferecer condições adequadas de acessibilidade para que pessoas com deficiência possam não apenas ingressar no ensino superior, mas também permanecer na universidade e desenvolver pesquisas.
Bolsa da FAPDF contribuiu para a formação
O suporte financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal teve papel importante durante o período de mestrado.
Por meio do Programa Permanente de Desenvolvimento da Pós-Graduação (PDPG), Iury recebeu uma bolsa destinada a estudantes do mestrado profissional em Educação da UnB.
De acordo com o pesquisador, o benefício ajudou a custear despesas relacionadas à formação, à acessibilidade e aos deslocamentos, além de possibilitar sua participação em eventos acadêmicos e atividades em diferentes regiões do país.
“A FAPDF me ajudou muito; permitiu que eu me apresentasse em vários lugares, em palestras em Brasília e em outros estados, e também ajudou a comprar coisas de acessibilidade de que precisei”, contou.
Com o apoio, Iury ampliou sua participação em iniciativas acadêmicas e sociais. Entre as experiências estão atividades da Semana Universitária da UnB, encontros com estudantes de pedagogia, participação na Conferência Nacional de Libras e uma apresentação como palestrante no Congresso das Apaes, realizado em Minas Gerais.
Próximos passos incluem formação de professores e doutorado
Após concluir o mestrado, Iury pretende continuar atuando na área educacional, especialmente em projetos voltados à formação de professores e à ampliação da participação de pessoas surdocegas nos espaços de ensino e na sociedade.
O pesquisador também considera dar continuidade à carreira acadêmica por meio de um doutorado.
Sua conquista representa um avanço para a inclusão no ensino superior e amplia as discussões sobre acessibilidade, autonomia e oportunidades educacionais.
Ao apresentar a perspectiva de uma pessoa surdocega sobre a própria trajetória de aprendizagem, o estudo contribui para mostrar que a inclusão vai além de garantir o acesso à universidade. Também é necessário oferecer recursos, adaptações e suporte para que todos tenham condições de permanecer, produzir conhecimento e participar plenamente da vida acadêmica.

